terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Um olhar crítico: O pensamento de Marx acerca da religião.



Um olhar crítico: O pensamento de Marx acerca da religião.
                                                                                                          Robertino Lopes[1]
            RESUMO
Este artigo propõe alguns pontos do pensamento de Karl Marx acerca da religião. Ao analisarmos o contexto em que ele se apresenta procuramos discutir os conceitos que Marx propõe, seja ele de alienação, seja de ideologia e suas implicações na temática da religião. Ele apresenta a justificativa para condenar a religião, pois a mesma é instrumento de controle social e de truncamento do potencial humano. Como Marx não escreveu, nem estudou especificamente religião partimos de fragmentos de textos, bem como de autores (Urbano Zilles e Ivo Lesbaupin), para desenvolver essa reflexão.
Palavras-chave: religião – alienação – dialética – ideologia.

Filósofo, economista e cientista político alemão, Marx nasceu em Tréveros em 15 de maio de 1818, cidade capital da província do Reno, cuja tradição remota os tempos de Roma. Filho de classe média, o pai advogado, a mãe, uma judia dedicada à família. Sofre influência desde cedo do universo judaico, devido ao seu radicalismo, foi expulso de vários países europeus. O pensamento marxista exerceu profundas influências nas mais diversas áreas ligadas ao conhecimento humano: Filosofia, Sociologia, Economia e Educação.
O jovem Marx, depois de estudar direito um ano em Bonn (1835), foi a Berlin e ai se integrou ao clube dos doutores da esquerda hegeliana (David Strauss, Bruno Bauer, Hess e Max Stirner), influencia essa que o faz se tornar ateu. Como afirma Zilles: “A doutrina de Karl Marx nasce, no século XIX, da confluência do materialismo da ciência natural com o socialismo francês, penetrada e animada pelo espírito da dialética de Hegel”. A grande contribuição de Hegel para Marx vai ser o resgate da dimensão da Temporalidade e da Historicidade, em outras palavras, a perspectiva dialética do pensamento filosófico, que não vê no real algo pronto ou mesmo acabado, pelo contrário, enxerga que estamos diante de um “vir a ser”, de um movimento para frente, de um constante “devir”, como diria Heráclito de Éfeso. Marx coloca a dialética hegeliana com os pés na realidade.[2]
É preciso destacar que, inicialmente, que ele não se preocupou, ou mesmo se ocupou vastamente da temática ligada à religião. Ela se mostra presente nos primeiros anos de sua atividade intelectual e depois vai aparecer sobre formas de afirmações esporádicas em suas obras, para dizer melhor, não há nele uma preocupação específica em dedicar uma obra completa a essa temática. Ele, mesmo priorizando outras questões, deu certa relevância a esse aspecto.
Lênin, continuador da ideologia marxista e fundador do partido diz: “A teoria de Marx é o verdadeiro herdeiro  do que de melhor produziu a humanidade no século XIX, na forma da Filosofia alemã, da economia política inglesa e do socialismo francês”. Marx teria conseguido passar de uma realidade puramente teórica para o momento da práxis, esse salto só foi possível por sua compreensão do pensamento hegeliano, pensamento esse que vai influenciar direta e indiretamente toda sua obra.
Ao falar de marxismo e religião é preciso, antes de tudo distinguir o que a tradição vulgarizada do marxismo nos transmitiu e o que efetivamente Marx e Engels pensaram sobre a religião. Essa tradição não nos transmitiu apenas uma teoria, um conjunto de idéias – resumidas na afirmação “a religião é o ópio do povo” – mas uma história de oposições (Lesbaupin, 2011).
Marx era ateu muito antes de ser comunista. Sua atitude anticapitalista não foi pressuposto, mas confirmação. Aceitara o ateísmo da esquerda hegeliana de Berlin e Feuerbach. A inteligência de Marx conseguiu que o ateísmo se tornasse o fundamento e a ideologia para o socialismo até os nossos dias. Diz Zilles, citando os manuscritos econômico-filosóficos de Paris: “O ateísmo é o humanismo pela superação da religião, e o comunismo é o humanismo pela superação da propriedade privada”. Sua passagem por Paris, o contato com as idéias socialistas, com a miséria do proletário industrial, embora o mesmo nunca ter sido operário, fez com que se torna-se socialista e comunista. Passa a pensar na possibilidade de uma organização por parte dos trabalhadores e torna-se “o teórico do proletariado” (Zilles, 1991). Para Marx o ateísmo é algo bem claro, tão claro que não precisa de nenhuma investigação mais apurada de sua parte. Deus não passa de uma projeção do homem, por isso que a religião não passa de produção e alienação do homem, Berg diria que ela (a religião) seria uma legitimadora das questões humanas, logo, manipulável. “A religião serve, assim, para manter a realidade daquele mundo socialmente construído no qual os homens existem nas suas vidas cotidianas”. (Berg, 1985).
O homem é o criador da religião, ao propor uma análise da religião, Marx quer verificar os conflitos oriundos da mesma, sua superação e conseqüentemente ele quer destruir tais conflitos. A religião é o sentimento de paz e harmonia de uma sociedade alienada. É um momento necessário de um mundo alienado porque o justifica, o legitima (Berg). Seu protesto contra esse mundo permanece sem conseqüências porque propõe uma solução para além da história, para além-túmulo. A religião apenas oferece a libertação espiritual do homem, a libertação imaginária e ilusória, meramente aparente e abstrata. Somente a práxis revolucionária, o exercício dialético-histórico, será capaz de emancipar plenamente o proletário industrial, dispensando o protesto e o consolo da religião.
Na primeira fase, portanto, Marx trabalha a religião como alienação. Numa segunda fase, que começa com a Ideologia Alemã (1845) – onde se firma os princípios teóricos que serão o fundamento de sua produção intelectual – Marx considera a religião como ideologia. Na Ideologia alemã, Marx e Engels situam suas idéias como não tendo autonomia própria, como produto da atividade material do homem. A formação das idéias sejam elas filosóficas, morais, religiosas ou outras, se explicam a partir da maneira como os homens produzem os bens materiais (Lesbauspin, 2011).
Marx entende que a religião é uma consciência equivocada, errada em relação ao mundo. Enquanto protesto contra as situações humanas é protesto ineficiente, falho,  porque desvia atenção desse mundo e de sua transformação para outro, para o além, algo que, diante mão, não me dá nenhuma garantia, firmeza ou mesmo certeza concreta, que só posso abstrair ou mesmo nominar pela fé, por sentimentos, ou seja, não é algo confiável pelo viés da razão, ou mesmo da práxis-histórica.
Dessa maneira a religião age como calmante: “É o ópio do povo”. A religião retira a capacidade humana de ver a realidade, ela hipnotiza os homens com falsa superação da miséria, com falsas imagens e assim destrói sua força de revolta; revolta essa que poderia levar o homem a uma superação dessa realidade, em outras palavras, a religião anula todas as possibilidades, todas as tentativas do homem mudar, superar, transpor todas as barreiras impostas pelo capitalismo a sua existência. Para Marx o homem deve entender o processo histórico e superá-lo e isso só acontece na medida em que o homem sai do plano teórico para a práxis, ou seja, não é só entender é também superar, a religião seria o entrave nesse processo, tornado o homem passivo em todo esse contexto, daí sua condição alienante. Para ele não há uma ordem natural das coisas, tudo pode ser transformado.
A crítica de Marx é erguida e sustentada sobre o eixo das alienações nas suas mais diversas formas de manifestação. Por alienação ele tem um entendimento diferente de Hegel no sentido de exteriorização, mas um caráter pejorativo, histórico ou real. Trata-se de situações em que o homem se perdeu a si mesmo. Distingue a alienação religiosa, a alienação política, a alienação social, a alienação econômica e a alienação filosófica.
Na alienação religiosa, o homem projeta segundo Marx, para fora de si, de maneira vã e inútil, seu ser essencial, que faz com que ele não veja a realidade (ou veja de forma deformada) e perde-se na ilusão de um mundo transcendente, mundo esse que seria bem melhor que o atual, digamos que seria um mundo quer seguiria outra lógica, havendo compensações em relação a esse, dando ao homem uma esperança que só seria possível nesse mundo transcendente. Aceita, pois, o conceito feuerbachiano de alienação. A religião nada mais é que a projeção do ser do homem em um mundo ilusório. Com ela aliena-se a si mesmo, em outras palavras: “A religião é então reflexo ilusório, fantástico, das relações de dominação de classe, de exploração: as idéias religiosas exprimem, justificam e escondem a realidade da dominação. A religião é ideologia, falsa consciência”. (Lesbauspin, 2011). É a idéia que a religião não tem substância própria.
A religião faz o sujeito predicado, alcançando Deus sobre as nuvens, em vez de dar-se conta de que o céu está sobre a terra. Enquanto Feuerbach se contentara em denunciar intelectualmente a alienação religiosa, sem indagar as causas, Marx admite que a religião é uma ilusão, não, porém, ilusão puramente intelectual. A alienação religiosa deve ser analisada, compreendida e até refutada a partir da situação histórico-social concreta. Mas a religião é a expressão mais vivas da alienação do homem e não seu fundamento. A essência da alienação do homem encontra-se no contexto econômico, do tipo de relações de produção geradas no mundo capitalista, contexto esse que a religião aceita passivamente. Essa relação de produção reduz o homem a um estado de engrenagem, de mera peça; tirando do homem sua essência pensante e transformadora: “Destruindo essa estrutura econômica também se destrói a religião que é o seu produto. São as estruturas econômicas que, segundo ele, geram falsa consciência, que é a religião. Assim a idéia de Deus é resultado de uma economia alienante” (Lesbaupin, 2011).
A religião é o aroma de uma sociedade alienada. É um momento necessário de um mundo alienado porque o justifica. Seu protesto contra esse mundo permanece sem conseqüências porque propõe uma solução para além da história. A religião apenas oferece a libertação espiritual do homem, a libertação imaginária e ilusória. Somente a práxis revolucionária será capaz de emancipar radicalmente o proletário industrial, dispensando o protesto e o consolo da religião.
É uma forma da existência humana intrinsecamente falsa. A religião nasce segundo Marx, da convivência social e política perturbada dos homens, de lacunas deixadas pela própria condição humana. O crente suspira uma felicidade ilusória para esquecer sua desgraça presente, para com isso ignorar a realidade prática e histórica, significa dizer que seu olhar está difuso, pois não enxerga o que está diante dos próprios olhos. Por isso a religião é o ópio do povo, na medida em que ela contribui para que essa distorção na visão que ele tem de si e do que está a sua volta. Para libertar o proletariado e a humanidade da miséria, é preciso destruir o mundo que gera a religião.
Na da história da humanidade são as forças da natureza, depois surgem às forças sociais e, conseqüentemente, todo um arcabouço de situações, idéias, conceitos, enfim, a cultura. A seguir todos os atributos naturais e sociais dos muitos deuses são vinculados a um único Deus onipotente, reflexo do homem abstrato. No mundo da economia burguesa diz-se: “O homem pensa e Deus ajuda”. Para Marx, Deus é apenas consolação interesseira, justificação ilegítima para coisas legítimas. Segundo Marx, a religião não terá mais razão de ser quando a vida social aparecer como “obra de homens livremente associados, agindo conscientemente e mestre de seu próprio movimento social” (MARX. O Capital, 1965).
A crítica de Marx deve ser entendida num primeiro momento, como uma crítica ideológica ao cristianismo burguês de sua época, a sua ideologia e a instrumentalização da mesma. Para ele isso afetaria diretamente as relações de produção, logo, era mais um instrumento de alienação e escravidão do proletário. Ele analisa a função da religião na sociedade do século XIX, seu interesse era pelo papel que a mesma ocupada, ele nunca estudou sistematicamente a religião. “Na síntese hegeliana, o cristianismo deixa de ser religião para ser apenas cultura. Desta síntese origina-se, de um lado a solução social de Feuerbach e Marx como humanismos absolutos e, de outro, a solução religiosa que rompe com o mundo e a sociedade.  















BIBLIOGRAFIA

BERGER, Peter. O Dossel Sagrado – Elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985.
LESBAUSPIN, Ivo. Marxismo e religião. In: Sociologia da Religião – Enfoques teóricos. Petrópolis, Rj: Vozes, 2011.
MARX, Karl. “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”. Marx, Karl e ENGELS, Friedrich. In: Sobre a religião. Lisboa: Edições 70, 1975, p.47-49. [Texto e escrito no fim de 1843 a Janeiro de 1844. Aparecido nos “Anais Franco-Alemães”. Paris, 1844. Segundo Karl Marx-Friedrich Engels: Obras, tomo I. Berlim, 1958].                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
__________. Manuscritos econômico-filoasófico e outros textos escolhidos: seleção de textos de José Arthur Giannotti. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os pensadores).
REALE, Giovanni, ANTISERI, Dário.  História da Filosofia. Do romantismo até os nossos dias (Volume III). São Paulo: Paulus, 1990.
ZILLES, Urbano. Filosofia da Religião. São Paulo: Paulus, 1991.











[1] Filósofo pela UFPB (Licenciatura e Bacharelado), Teólogo pela Escola Teológica Ministerial da Arquidiocese da Paraíba, aluno de Teologia do Seminário Arquidiocesano da Paraíba Imaculada Conceição e graduando do 4º Período de Ciências das Religiões pela UFPB.
[2] Marx passa do idealismo hegeliano para uma práxis histórico-crítica, ou seja, uma dialética com “os pés no chão”. Essa expressão é para falar que Ele vai além de Hegel, pois pensa na praticidade da realidade e não em algo idealizado como sendo distante ou para uma realidade atemporal.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Uma nova primavera



Não é a política o problema, muito pelo contrário, ela é a solução de muitos problemas. Contudo é preciso ir bem mais além das palavras e o mero discurso apologético. Quando começamos a generalizar tudo caímos em um relativismo destrutivo. Desde sempre os homens buscaram viver juntos para sobreviver na natureza, e perceberam que para que isso desse certo seria preciso estabelecer regras para se bem viver. É assim que surge o Estado, que surge como uma forma de organização que tem como principio primeiro o bem comum de todos. Mas como aquele ditame também antigo “homu, lopus hominis”, ou seja, o homem é o lobo do homem, quem criou, também manipulou. Essa organização que criada para um fim comum passou a ter um fim particular, individualista. A degeneração de tal idéia é a ruína da civilização ocidental. Passamos a enxergar o mundo com olhos individualistas e materialistas, sem falar no reducionismo que está tão presente hoje em meios acadêmicos. Pensar um Estado é pensar os indivíduos que vão administrá-lo, que vão conduzi-lo; enfim, é pensar o todo. A corruptibilidade se dá quando eu não consigo transcender a mim mesmo, quando passo a usar, do cargo, da função, do status, para promover uma causa pessoa, individual. É preciso entender que, o que citei em latim acima, somos os nossos próprios algozes. A ignorância generalizada que assola nossa sociedade é a mesma que fabrica indivíduos controlados pela mídia e pelos padrões estabelecidos pelos que “nos controlam”. Daí a educação publica ficar em terceiro ou quarto plano, etc. Querem matar nossas esperanças para que esqueçamos de fazer nossa parte, ou mesmo o que acreditamos, se prega o individualismo em todas as esferas da sociedade, com intuito de nos isolarmos e não acreditarmos em um mundo melhor. Diariamente nossa mídia é um veiculo de “desesperança” de caos e infelicidades.
Quero dizer que acredito na política, em homens e mulheres sérias que podem fazer a diferença, procuro todos os dias com minha pratica profissional e cristã fazer a diferença e lutar por um mundo melhor, mais justo e humano, acredito que existem muitos “Pedros Simons, Gabriéis Chalitas, Lulas” que fazem a diferença. Quero, seguindo seus exemplos também eu ser um político e homem público que fará a diferença e convido você a se juntar comigo na lutar por um Estado de direito democrático e sério, fiel aos ditames de nossa Constituição Federal.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

“Considerando as Ciências das Religiões, como vocês situam a partir do texto [ Em busca de uma cultura epistemológica, de Luiz Felipe Pondé] o problema da visibilidade dos objetos de estudo, e aqui em especial, o objeto das Ciências das Religiões?”




            É importante estarmos cientes que não estamos entrando em um campo de estudos fácil, muito menos simplório. Falar em Ciências das Religiões é levantar problemáticas e dúvidas, é descobrir que esse campo de estudo é muito vasto e ainda se tem muito para descobrir, entender que para tal façanha precisamos de “ferramentas adequadas” para realizar com segurança e eficácia tal empreitada. Daí porque a pergunta não se satisfaz com uma resposta direta e simples.
            Em qualquer estudo acadêmico é importante que tenhamos um método próprio para fazer suas respectivas pesquisas. Daí o texto do Pondé nos convida “uma busca por uma cultura epistemológica, busca essa que começa, admitindo nossas limitações cognitivas, mas, levando-nos a perceber que tais limitações podem ser superadas pela prática te tal cultura, ele também nos provoca a ter o hábito de lidar com os clássicos, isso fará com que possamos criar uma grade epistemológica de trabalho ou mesmo um vocabulário legitimador das suas construções (desses clássicos) e trocas conceituais. Entendendo que o grande objeto de estudo das Ciências das Religiões são as religiões, se faz necessário todo esse arcabouço teórico para que, além de visibilidade, se tenha credibilidade ao adentrar nesse campo de pesquisa.
            Daí Marcelo Dascal nos ajuda propondo a teoria das “controvérsias em epistemologia”. Ela fará com que tenhamos elementos rigorosos em nossas pesquisas, colocando em “cheque” a validade ou a sustentabilidade daquilo que é proposto ou mesmo questionado. A questão não é falsear ou não o argumento ou a problemática, mas, chamar atenção para ela, dar-lhe visibilidade acadêmica, a controvérsia ilumina a natureza das diferenças.
            Em si a religião é sempre vista de dois ângulos. Um é o fenômeno que a envolve, são os arquétipos que fomentam toda sua constituição, é por assim dizer, o miolo, o núcleo interior, enquanto que a instituição, que é o outro ângulo, faz como que o “aparente”, o legal (no sentido de legalidade existencial), aquilo que diz que ela como tal pode se arvorar ao título de religião.
            Tomando Greschat (O que é Ciência da Religião? 2005, p 17) A palavra religião é como um labirinto. Perder-se-á nele quem não trouxer um fio condutor para se orientar. Reafirmando tudo que já foi dito, podemos crer que de fato, esse fio condutor é um conjunto de elementos epistemológicos que podem dar visibilidade e credibilidade as pesquisas em Ciências das Religiões. Eles são os pressupostos epistemológicos que serão utilizados como “ferramentas” para o trabalho acadêmico e elementos indispensáveis para que se olhe essa ciência como uma área do conhecimento e suas produções sejam vistas e aceitas como de fato produção científica.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Um pensar por palavras



            Cada vez que lemos entramos em um universo desconhecido. Os livros têm um poder sobrenatural, eles revelam quem somo e o que queremos. São territórios inexploráveis. Meus livros revelam quem sou, meus segredos, minha personalidade, meus anseios e medos. Algumas leituras assustam porque elas acabam revelando quem nosso verdadeiro eu. Quem pode controlar o pensamento? O que são as lembranças? Elas são intransferíveis e incontroláveis, vão e vem sem pedir permissão. Desde que me entendo por gente que me encanto com o ser humano, que ele me fascina. Na capacidade de raciocínio, nas mais diversas situações: capacidade de amar, de se doar, de abraçar uma causa, de ser essa metamorfose ambulante, de passar do amor ao ódio em segundos, enfim, somos e não somos.
            Essa inconstância é ao mesmo tempo assustadora e fascinante. São situações diversas que todos os dias somos colocados à prova e nem sempre nos saímos bem. A convivência é uma arte, e principalmente a com relação aos contrários. Agora me vem em mente, não o casamento, mas os ambientes de trabalho, onde passamos boa parte de nossa existência, onde vivemos diversos dramas existenciais, morais, éticos, enfim, luta dos contrários mesmo. Convenço-me mais a cada dia, e creio que isso é por empiria, que o paradigma sartriano ainda vai demorar ser falseado, o inferno são os outros. Claro, isso pode ser uma excentricidade minha, pode até ser um devaneio de sábado à noite, quem garante que não é? Contudo acredito que precisamos pensar sobre essas coisas, no sentido que nossa existência não pode ser fechada em si mesma. Creio que somos bem mais, que estamos para bem mais que simplesmente só isso: infernizar a vida dos outros.
            Não quero escrever apologias a nada, nem a futebol, nem a religião, nem ao sagrado, muito menos ao profano, deixo isso para os especialistas. Mas quero aqui partilhar “delírios” da condição humana, momentos que são necessários erguer o pensamento para além de nossa limitada condição de meros expectadores da nossa história pessoal.  Ir além das sombras, daquilo que não conseguimos expor na luz e que nos perseguem em todos os lugares. Chamo isso de “catequese racional”, não no sentido de dar respostas prontas, ou meramente repetitivas, mas, uma tentativa de introspecção, de voltar a si mesmo para buscar repostas e mais ainda questões para serem propostas a nós mesmos.
            “A imagem que tenho é de um grande corredor, muitos quartos; vários. E esse corredor é extenso, cada porta guarda algo que não pode ser revelado, caminho em direção do final do corredor, e ao olhar percebo que cada porta tem algo escrito: infância, adolescência, família, e assim caminho, o que me interessa de verdade não são essas portas e sim a que está por ultimo: meus medos. Aquilo que guardei escondido no ultimo quarto, lugar que há tempos não visitava porta que fica em frente da porta dos desejos secretos, do meu verdadeiro eu, ambas as portas estão nas sombras do corredor.”
            O que temos aqui? Como interpretar toda essa fala? O que tem de real e que tem de ficção? Onde começa e onde termina a realidade?
            “Pense interiormente que cada dia é o último, à hora inesperada virá como uma grata surpresa; quanto a mim se quiser dar boas risadas vai me encontrar num belo estado, gordo e satisfeito, um verdadeiro porco no rebanho de Épicuros” (Horácio)
            Que poder tem as palavras, por elas podemos abençoar salvar vidas, inflamar egos, perdoar pecados, flertar, magoar, demitir, caluniar, enfim, elas materializam sentimentos, externam o que está no coração, é a nossa consciência, aquilo que pensamos materializada em uma linguagem simbólica e escrita. Algo sobrenatural e bem humano.

           


           

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Um pensamento sobre política

Que sociedade queremos? Estamos dispostos realmente a mudar o mundo? Queremos mesmo um mundo melhor? São várias as indagações acerca do homem e da sociedade onde ele está inserido.
Digo isso para falar de política. Algo que é essencial para vida humana, pois é o instrumento que organiza que rege e que dirige nossas vidas. Desde o barão de Montesquieu, onde com o seu Espírito das Leis, preparou as bases para o nosso Estado (questão dos três poderes) até os nossos dias vemos e ouvimos todos os dias pessoas dizerem que não gostam de política. Mas seria essa atitude solução? Que se beneficia com esse pensamento?
A política é arte do bem comum, é o cuidado com a polis e todos os seus moradores. O político é aquele que quer o bem comum. Para os gregos antigos deveria ser um filósofo o responsável por tal função, pois o mesmo teria o conhecimento e maturidade para gerir a cidade. Deveria cuidar de todos sem privilegiar ninguém e sim ter em vista apenas o bem da cidade.
Mas hoje o perfil dos nossos políticos mudou. Já não é o bem da cidade que importa, já não há imparcialidade ou mesmo neutralidade. Claro que tudo isso é reflexo da sociedade, o tido de cidadão que é fruto dessa realidade. Pessoas que cada dia se aproveitam mais da ignorância, da pobreza, da falta de clareza do povo, enfim, é assim que oportunistas chegam ao poder no Estado e passam a manipular à “máquina administrativa”.
Hoje olho em volta e vejo poucos exemplos a serem seguidos, prefiro olhar para trás e buscar inspiração nos gregos para tentar entender a política. Assusto-me até com os que estão perto da gente: “orçamento participativo, mandato democrático, companheiros pra cá, companheiros pra lá”. São esses os chavões daqui. É algo intrigante e revoltante o quando esses hipócritas despreparados são capazes de fazer. Falsos “pais dos pobres” só aparecem a cada quatro anos com as mesmas cestas nas mãos e o mesmo papo. Pais sucedem filhos, famílias se revezam e assim é a nossa história.
Quando ando na feira e escuto os populares ainda apaixonados porque sua dignidade foram trocados por um favor em algum hospital ou uma saca de cimento, até discutirem por candidato “a” ou candidato “b” com tanta veemência que refletem a total ignorância no assunto e confundem obrigação com bondade. É dever do Estado cuidar dos cidadãos e só pode cumprir bem esse papel os que são vocacionados a isso. Quantos Pedros Simons vocês conhecem? E Gabrieis Chalita? Eu só conheço um de cada.
Temos homens e mulheres q ue diante de câmeras e microfones dizem uma coisa e nos bastidores fazem outras, são meramente atores pagos com dinheiro público, ou o que é pior “falsos salvadores da pátria”.
Fico perplexo e até sem ação com os nomes que surgem pleiteando mandatos: produtor de cinema de bairro, puxador de quadrilha junina, agente de turismo, guardador de carros, presidentes de associação de bairro, enfim, minha perplexidade não é com as funções que, para mim são todas dignas, contudo na realidade que estou inserido é mera questão de promoção pessoal e trampolim para status.
Mesmo percebendo que num primeiro momento existe uma inquietação diante de uma realidade isso não significa dizer que realmente se pode mudar algo só com inquietação. Muda-se quando se quer mudar, quando se tem claro o que é o publico e suas diferenças com o privado, quando se tem uma maturidade emocional e equilíbrio psicológico para lidar com o poder, com a capacidade de decidir coisas que mudarão diretamente vidas de pessoas.
É preciso dialogar com as pessoas, é preciso sentir os desejos e anseios desse povo, sem medos e receios. Atendendo, conversando, olhando olho no olho, enfim, o verdadeiro político ele o é sem mandato. É algo intrínseco a sua própria condição existencial, é o desejo constante de servir e ao mesmo tempo com profissionalismo e zelo pelo seu serviço. Vejo muitos que aqui estão (locais) com aquilo que eu chamo de “síndrome da monarquia retardada”, ou seja, política absolutista centrada no egocentrismo pessoal que quer tudo e todos ao seu mero serviço. Sem falar da prática da perseguição que é muito comuns mesmo homens já antigos nesse oficio são movidos por esse desejo: perseguir os que discordam de suas idéias, coagir, transferir, exonerar, enfim, “tirar o obstáculo do caminho”.
É preciso ter clareza ao escolher um homem público para um mandato: Quem foi ele? (seu passado, sua história), quem é ele? (seu presente, como se posiciona sobre as grandes questões), o que ele quer? (projetos futuros). E fujamos dos votos de repúdio, não resolve entregar mandados em mão de pessoas que não tem vocação para tal; precisamos incentivar pessoas que realmente vão fazer a diferença nesses espaços públicos, precisamos valorizar nosso voto, pois só mudaremos a sociedade quando mudarmos os nossos políticos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Nossa vocação é amar

Cada dia é um novo recomeço, é uma oportunidade única de tentar de novo. Essa é a dinâmica da vida, essa é a nossa realidade. Quando Deus nos chama a uma vocação é assim, ele chama e nós respondemos. O chamado a paternidade é um dom que Ele nos dá para a construção do reino. Percebo cada dia no olhar de minha filha o amor de Deus para comigo. É esse amor que me leva há caminhar cada dia e que me dá a certeza de dias melhores.
Em uma sociedade como a nossa, egocêntrica, tecnicista, secular e que não atenta para os valores cristãos somos chamados a dar testemunho de vida familiar. Vivendo realmente os valores dentro de casa na educação e na convivência somos chamados por Deus a irmos na contra mão dos acontecimentos, ou seja, os valores da família de Nazaré devem ser preservados e atualizados em nossos dias. Ser pai, ser mãe é um desafio, mas, mais que isso é uma bênção de Deus, é um chamado. Cada dia me sinto mais realizado nesse chamado que respondi. Ser pai é participar da criação de Deus, é ser guardião dessa criação, enfim, é está em harmonia com as maravilhas de Deus.
Portanto, sejamos todos envolvidos na Graça de Deus e firmes em seus ensinamentos e propósitos, crentes que TUDO É DO PAI e que a vontade Dele prevalece. Fomos chamados cada um há contribuir na construção, já aqui na terra, do seu Reino e ele começa dentro de cada um de nós, se expande por nossa família e se irradia para todo o mundo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

As palavras e as coisas

Sair e começar caminhar
passar a diante por pessoas que não conheço e tentar imaginar o que se passa em todas as cabeças. O mundo a minha volta e tudo que ele oferece. Corre-corre, luzes, calor, vozes, tudo a minha volta como sendo desconhecido e ao mesmo tempo sufocante. Vivemos nas disparidades, olhamos rostos sofridos e alegres, caras tristes e felizes, enfim, a vida passando a nossa frente.
Sentir é perceber, é ir além desse mero aparentar. O que realmente estamos a procurar olhando para fora de nós mesmos? Em contra partida, olhar dentro é encontrar o eu, é ir além das experiencias sensoriais e mergulhar profundamente em uma experiencia psíquica, espiritual. Precisamos a todo momento estar consciente de que a existência não é mera obra do acaso, e até mesmo que esse acaso é produto de nossa imaginação. Vivemos em emaranhados de pensamentos e realidades que parece que a vida está sempre no “piloto automático”, que tudo já foi meticulosamente pesado e medido. E não é assim, somos seres em plena construção, em pleno estado de devir.
Temos uma força que, muitas vezes, somos desconhecedores dela. Acabamos sendo moldados por aqueles que constroem as fôrmas para fazerem escravos e marionetes. Que ditam o comando das vidas, das modas, dos mundos, das ilusões e de tudo. Quanta falta nos faz termos uma geração de leitores pensantes, de homens e mulheres que não se conformam com o aparente e que estão dispostos a romper com toda forma fechada de pensamento, com toda forma de escravidão e “formação”. Que até são chamados de “alternativos” como forma pejorativa de nomenclatura, como numa tentativa de inferiorizar toda e qualquer forma de crítica e autocritica. Parecendo que querem que sejamos “bobo da corte”. No entanto, é preciso ler, é preciso denunciar, e é preciso mais ainda viver.
Continuando minha caminhada, passo por uma rua e vejo alguém no chão. Estaria dormindo? É um morador de rua? Tem história? Quem é? E me passa uma séria de coisas pela cabeça, inclusive, que poderia ser eu ali. Interessante que sempre carrego esse sentimento comigo. Poderia ser eu. E como seria se fosse eu? Acredito que é preciso ter essa capacidade de se colocar no lugar do outro. Fazer essa experiência é sentir a vida. Os que não fazem isso são “monstros” egocêntricos. Grande parte dos políticos são assim.