quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

“Considerando as Ciências das Religiões, como vocês situam a partir do texto [ Em busca de uma cultura epistemológica, de Luiz Felipe Pondé] o problema da visibilidade dos objetos de estudo, e aqui em especial, o objeto das Ciências das Religiões?”




            É importante estarmos cientes que não estamos entrando em um campo de estudos fácil, muito menos simplório. Falar em Ciências das Religiões é levantar problemáticas e dúvidas, é descobrir que esse campo de estudo é muito vasto e ainda se tem muito para descobrir, entender que para tal façanha precisamos de “ferramentas adequadas” para realizar com segurança e eficácia tal empreitada. Daí porque a pergunta não se satisfaz com uma resposta direta e simples.
            Em qualquer estudo acadêmico é importante que tenhamos um método próprio para fazer suas respectivas pesquisas. Daí o texto do Pondé nos convida “uma busca por uma cultura epistemológica, busca essa que começa, admitindo nossas limitações cognitivas, mas, levando-nos a perceber que tais limitações podem ser superadas pela prática te tal cultura, ele também nos provoca a ter o hábito de lidar com os clássicos, isso fará com que possamos criar uma grade epistemológica de trabalho ou mesmo um vocabulário legitimador das suas construções (desses clássicos) e trocas conceituais. Entendendo que o grande objeto de estudo das Ciências das Religiões são as religiões, se faz necessário todo esse arcabouço teórico para que, além de visibilidade, se tenha credibilidade ao adentrar nesse campo de pesquisa.
            Daí Marcelo Dascal nos ajuda propondo a teoria das “controvérsias em epistemologia”. Ela fará com que tenhamos elementos rigorosos em nossas pesquisas, colocando em “cheque” a validade ou a sustentabilidade daquilo que é proposto ou mesmo questionado. A questão não é falsear ou não o argumento ou a problemática, mas, chamar atenção para ela, dar-lhe visibilidade acadêmica, a controvérsia ilumina a natureza das diferenças.
            Em si a religião é sempre vista de dois ângulos. Um é o fenômeno que a envolve, são os arquétipos que fomentam toda sua constituição, é por assim dizer, o miolo, o núcleo interior, enquanto que a instituição, que é o outro ângulo, faz como que o “aparente”, o legal (no sentido de legalidade existencial), aquilo que diz que ela como tal pode se arvorar ao título de religião.
            Tomando Greschat (O que é Ciência da Religião? 2005, p 17) A palavra religião é como um labirinto. Perder-se-á nele quem não trouxer um fio condutor para se orientar. Reafirmando tudo que já foi dito, podemos crer que de fato, esse fio condutor é um conjunto de elementos epistemológicos que podem dar visibilidade e credibilidade as pesquisas em Ciências das Religiões. Eles são os pressupostos epistemológicos que serão utilizados como “ferramentas” para o trabalho acadêmico e elementos indispensáveis para que se olhe essa ciência como uma área do conhecimento e suas produções sejam vistas e aceitas como de fato produção científica.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Um pensar por palavras



            Cada vez que lemos entramos em um universo desconhecido. Os livros têm um poder sobrenatural, eles revelam quem somo e o que queremos. São territórios inexploráveis. Meus livros revelam quem sou, meus segredos, minha personalidade, meus anseios e medos. Algumas leituras assustam porque elas acabam revelando quem nosso verdadeiro eu. Quem pode controlar o pensamento? O que são as lembranças? Elas são intransferíveis e incontroláveis, vão e vem sem pedir permissão. Desde que me entendo por gente que me encanto com o ser humano, que ele me fascina. Na capacidade de raciocínio, nas mais diversas situações: capacidade de amar, de se doar, de abraçar uma causa, de ser essa metamorfose ambulante, de passar do amor ao ódio em segundos, enfim, somos e não somos.
            Essa inconstância é ao mesmo tempo assustadora e fascinante. São situações diversas que todos os dias somos colocados à prova e nem sempre nos saímos bem. A convivência é uma arte, e principalmente a com relação aos contrários. Agora me vem em mente, não o casamento, mas os ambientes de trabalho, onde passamos boa parte de nossa existência, onde vivemos diversos dramas existenciais, morais, éticos, enfim, luta dos contrários mesmo. Convenço-me mais a cada dia, e creio que isso é por empiria, que o paradigma sartriano ainda vai demorar ser falseado, o inferno são os outros. Claro, isso pode ser uma excentricidade minha, pode até ser um devaneio de sábado à noite, quem garante que não é? Contudo acredito que precisamos pensar sobre essas coisas, no sentido que nossa existência não pode ser fechada em si mesma. Creio que somos bem mais, que estamos para bem mais que simplesmente só isso: infernizar a vida dos outros.
            Não quero escrever apologias a nada, nem a futebol, nem a religião, nem ao sagrado, muito menos ao profano, deixo isso para os especialistas. Mas quero aqui partilhar “delírios” da condição humana, momentos que são necessários erguer o pensamento para além de nossa limitada condição de meros expectadores da nossa história pessoal.  Ir além das sombras, daquilo que não conseguimos expor na luz e que nos perseguem em todos os lugares. Chamo isso de “catequese racional”, não no sentido de dar respostas prontas, ou meramente repetitivas, mas, uma tentativa de introspecção, de voltar a si mesmo para buscar repostas e mais ainda questões para serem propostas a nós mesmos.
            “A imagem que tenho é de um grande corredor, muitos quartos; vários. E esse corredor é extenso, cada porta guarda algo que não pode ser revelado, caminho em direção do final do corredor, e ao olhar percebo que cada porta tem algo escrito: infância, adolescência, família, e assim caminho, o que me interessa de verdade não são essas portas e sim a que está por ultimo: meus medos. Aquilo que guardei escondido no ultimo quarto, lugar que há tempos não visitava porta que fica em frente da porta dos desejos secretos, do meu verdadeiro eu, ambas as portas estão nas sombras do corredor.”
            O que temos aqui? Como interpretar toda essa fala? O que tem de real e que tem de ficção? Onde começa e onde termina a realidade?
            “Pense interiormente que cada dia é o último, à hora inesperada virá como uma grata surpresa; quanto a mim se quiser dar boas risadas vai me encontrar num belo estado, gordo e satisfeito, um verdadeiro porco no rebanho de Épicuros” (Horácio)
            Que poder tem as palavras, por elas podemos abençoar salvar vidas, inflamar egos, perdoar pecados, flertar, magoar, demitir, caluniar, enfim, elas materializam sentimentos, externam o que está no coração, é a nossa consciência, aquilo que pensamos materializada em uma linguagem simbólica e escrita. Algo sobrenatural e bem humano.

           


           

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Um pensamento sobre política

Que sociedade queremos? Estamos dispostos realmente a mudar o mundo? Queremos mesmo um mundo melhor? São várias as indagações acerca do homem e da sociedade onde ele está inserido.
Digo isso para falar de política. Algo que é essencial para vida humana, pois é o instrumento que organiza que rege e que dirige nossas vidas. Desde o barão de Montesquieu, onde com o seu Espírito das Leis, preparou as bases para o nosso Estado (questão dos três poderes) até os nossos dias vemos e ouvimos todos os dias pessoas dizerem que não gostam de política. Mas seria essa atitude solução? Que se beneficia com esse pensamento?
A política é arte do bem comum, é o cuidado com a polis e todos os seus moradores. O político é aquele que quer o bem comum. Para os gregos antigos deveria ser um filósofo o responsável por tal função, pois o mesmo teria o conhecimento e maturidade para gerir a cidade. Deveria cuidar de todos sem privilegiar ninguém e sim ter em vista apenas o bem da cidade.
Mas hoje o perfil dos nossos políticos mudou. Já não é o bem da cidade que importa, já não há imparcialidade ou mesmo neutralidade. Claro que tudo isso é reflexo da sociedade, o tido de cidadão que é fruto dessa realidade. Pessoas que cada dia se aproveitam mais da ignorância, da pobreza, da falta de clareza do povo, enfim, é assim que oportunistas chegam ao poder no Estado e passam a manipular à “máquina administrativa”.
Hoje olho em volta e vejo poucos exemplos a serem seguidos, prefiro olhar para trás e buscar inspiração nos gregos para tentar entender a política. Assusto-me até com os que estão perto da gente: “orçamento participativo, mandato democrático, companheiros pra cá, companheiros pra lá”. São esses os chavões daqui. É algo intrigante e revoltante o quando esses hipócritas despreparados são capazes de fazer. Falsos “pais dos pobres” só aparecem a cada quatro anos com as mesmas cestas nas mãos e o mesmo papo. Pais sucedem filhos, famílias se revezam e assim é a nossa história.
Quando ando na feira e escuto os populares ainda apaixonados porque sua dignidade foram trocados por um favor em algum hospital ou uma saca de cimento, até discutirem por candidato “a” ou candidato “b” com tanta veemência que refletem a total ignorância no assunto e confundem obrigação com bondade. É dever do Estado cuidar dos cidadãos e só pode cumprir bem esse papel os que são vocacionados a isso. Quantos Pedros Simons vocês conhecem? E Gabrieis Chalita? Eu só conheço um de cada.
Temos homens e mulheres q ue diante de câmeras e microfones dizem uma coisa e nos bastidores fazem outras, são meramente atores pagos com dinheiro público, ou o que é pior “falsos salvadores da pátria”.
Fico perplexo e até sem ação com os nomes que surgem pleiteando mandatos: produtor de cinema de bairro, puxador de quadrilha junina, agente de turismo, guardador de carros, presidentes de associação de bairro, enfim, minha perplexidade não é com as funções que, para mim são todas dignas, contudo na realidade que estou inserido é mera questão de promoção pessoal e trampolim para status.
Mesmo percebendo que num primeiro momento existe uma inquietação diante de uma realidade isso não significa dizer que realmente se pode mudar algo só com inquietação. Muda-se quando se quer mudar, quando se tem claro o que é o publico e suas diferenças com o privado, quando se tem uma maturidade emocional e equilíbrio psicológico para lidar com o poder, com a capacidade de decidir coisas que mudarão diretamente vidas de pessoas.
É preciso dialogar com as pessoas, é preciso sentir os desejos e anseios desse povo, sem medos e receios. Atendendo, conversando, olhando olho no olho, enfim, o verdadeiro político ele o é sem mandato. É algo intrínseco a sua própria condição existencial, é o desejo constante de servir e ao mesmo tempo com profissionalismo e zelo pelo seu serviço. Vejo muitos que aqui estão (locais) com aquilo que eu chamo de “síndrome da monarquia retardada”, ou seja, política absolutista centrada no egocentrismo pessoal que quer tudo e todos ao seu mero serviço. Sem falar da prática da perseguição que é muito comuns mesmo homens já antigos nesse oficio são movidos por esse desejo: perseguir os que discordam de suas idéias, coagir, transferir, exonerar, enfim, “tirar o obstáculo do caminho”.
É preciso ter clareza ao escolher um homem público para um mandato: Quem foi ele? (seu passado, sua história), quem é ele? (seu presente, como se posiciona sobre as grandes questões), o que ele quer? (projetos futuros). E fujamos dos votos de repúdio, não resolve entregar mandados em mão de pessoas que não tem vocação para tal; precisamos incentivar pessoas que realmente vão fazer a diferença nesses espaços públicos, precisamos valorizar nosso voto, pois só mudaremos a sociedade quando mudarmos os nossos políticos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Nossa vocação é amar

Cada dia é um novo recomeço, é uma oportunidade única de tentar de novo. Essa é a dinâmica da vida, essa é a nossa realidade. Quando Deus nos chama a uma vocação é assim, ele chama e nós respondemos. O chamado a paternidade é um dom que Ele nos dá para a construção do reino. Percebo cada dia no olhar de minha filha o amor de Deus para comigo. É esse amor que me leva há caminhar cada dia e que me dá a certeza de dias melhores.
Em uma sociedade como a nossa, egocêntrica, tecnicista, secular e que não atenta para os valores cristãos somos chamados a dar testemunho de vida familiar. Vivendo realmente os valores dentro de casa na educação e na convivência somos chamados por Deus a irmos na contra mão dos acontecimentos, ou seja, os valores da família de Nazaré devem ser preservados e atualizados em nossos dias. Ser pai, ser mãe é um desafio, mas, mais que isso é uma bênção de Deus, é um chamado. Cada dia me sinto mais realizado nesse chamado que respondi. Ser pai é participar da criação de Deus, é ser guardião dessa criação, enfim, é está em harmonia com as maravilhas de Deus.
Portanto, sejamos todos envolvidos na Graça de Deus e firmes em seus ensinamentos e propósitos, crentes que TUDO É DO PAI e que a vontade Dele prevalece. Fomos chamados cada um há contribuir na construção, já aqui na terra, do seu Reino e ele começa dentro de cada um de nós, se expande por nossa família e se irradia para todo o mundo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

As palavras e as coisas

Sair e começar caminhar
passar a diante por pessoas que não conheço e tentar imaginar o que se passa em todas as cabeças. O mundo a minha volta e tudo que ele oferece. Corre-corre, luzes, calor, vozes, tudo a minha volta como sendo desconhecido e ao mesmo tempo sufocante. Vivemos nas disparidades, olhamos rostos sofridos e alegres, caras tristes e felizes, enfim, a vida passando a nossa frente.
Sentir é perceber, é ir além desse mero aparentar. O que realmente estamos a procurar olhando para fora de nós mesmos? Em contra partida, olhar dentro é encontrar o eu, é ir além das experiencias sensoriais e mergulhar profundamente em uma experiencia psíquica, espiritual. Precisamos a todo momento estar consciente de que a existência não é mera obra do acaso, e até mesmo que esse acaso é produto de nossa imaginação. Vivemos em emaranhados de pensamentos e realidades que parece que a vida está sempre no “piloto automático”, que tudo já foi meticulosamente pesado e medido. E não é assim, somos seres em plena construção, em pleno estado de devir.
Temos uma força que, muitas vezes, somos desconhecedores dela. Acabamos sendo moldados por aqueles que constroem as fôrmas para fazerem escravos e marionetes. Que ditam o comando das vidas, das modas, dos mundos, das ilusões e de tudo. Quanta falta nos faz termos uma geração de leitores pensantes, de homens e mulheres que não se conformam com o aparente e que estão dispostos a romper com toda forma fechada de pensamento, com toda forma de escravidão e “formação”. Que até são chamados de “alternativos” como forma pejorativa de nomenclatura, como numa tentativa de inferiorizar toda e qualquer forma de crítica e autocritica. Parecendo que querem que sejamos “bobo da corte”. No entanto, é preciso ler, é preciso denunciar, e é preciso mais ainda viver.
Continuando minha caminhada, passo por uma rua e vejo alguém no chão. Estaria dormindo? É um morador de rua? Tem história? Quem é? E me passa uma séria de coisas pela cabeça, inclusive, que poderia ser eu ali. Interessante que sempre carrego esse sentimento comigo. Poderia ser eu. E como seria se fosse eu? Acredito que é preciso ter essa capacidade de se colocar no lugar do outro. Fazer essa experiência é sentir a vida. Os que não fazem isso são “monstros” egocêntricos. Grande parte dos políticos são assim.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

uma tarde de sol em uma semana qualquer.

Somos aquilo que verdadeiramente queremos ser. Todos precisamos mergulhar profundamente dentro de nosso ser interior em busca de quem realmente somos. Kant, quando fala: duas coisas são apenas me garantidas, o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim, nos faz refletir sobre realmente o que é a realidade e quem somos e qual o nosso papel dentro dela. Ao fechar os olhos experimentamos sentimentos únicos e pessoais. Quem realmente pode perscrutar o que é real dentro de nós ou o que não é? Russo dizia: digam o que disserem o mal do século é a solidão e cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando um pouco de atenção... estaríamos nós condenados à nós mesmos?
Sempre que me olho no espelho vejo uma pessoa diferente da vez anterior que olhei. No entanto, acredito que podemos transcender tudo isso, acredito que Kant tinha razão, que é preciso olhar para cima e olhar para dentro. Tudo isso me leva a refletir sobre realmente o que é importante na vida e o que realmente seria a "feliz-cidade". É algo externo ou algo interno?
São plenas certezas que me dizem que tudo que é sólido se desmancha no ar. Que Heráclito tinha razão ao falar que tudo é movimento "panta hei", que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, porque o movimento é constante e as águas mudam. Assim também devemos ser. Não poderia deixar de falar em Nietzsche quando profetiza acerca de nossa condição volátil, herguer e derrubar altares de acorco com nossas conveniências. É a retrato do homem pós-moderno.
Deixo aqui minha súplica e meu protesto: precisamos viver nossa liberdade, precisamos amar intensamente as pessoas, precisamos sonhar cada dia mais. Desejo a todos muitas paz e uma saborosa taça de vinho tinto seco!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Educação para o pensar: uma reflexão sobre a filosofia no universo infantil .

Educar significa transformar, construir e acima de tudo significa gerar. Aquilo que Sócrates dizia: “Sou um parteiro de almas”. O educador é um mediador; alguém que já fez uma experiência e que agora conduzem outros a fazer o mesmo caminho. Quando pensamos em Filosofia no Ensino Infantil estamos pensando em preparar bem o alicerce da formação educacional de nossas crianças. Estimular o pensar e raciocinar. É aprender o exercício paciente de pensar, de refletir e acima de tudo ousar. Ao tratarmos desse tema queremos mexer com antigos paradigmas educacionais e mais que nunca comprovar que educar é um processo dinâmico e continuo. Ou seja, só se faz educação em seu pleno exercício cotidiano. Saber que a filosofia é um estímulo ao pensamento crítico e como esse pensamento pode estimular o imaginário infantil.
Em tempos de velocidade como o nosso é imprescindível que possamos conduzir nossas crianças a momentos de reflexão constante. Momentos em que cessamos como a correria e nos voltamos a um exercício interior de voltarmos para nós mesmos e pensar, refletir, nos argüir acerca de nós mesmo e do mundo que nos cerca. É esse simples ato acético que nos diferencia dos animais. A capacidade de auto-refletir, de auto-avaliar, que nos faz saltar em direção da superação e da transcendência mediante o paciente ato de parar. Parar significa entrar em um estado de plena contemplação. Ou mesmo como fazem as crianças, soltar a imaginação e falar. Falar sem medo de errar ou de ferir conceitos e normas, sem se preocupar com sintaxe e semântica
Partimos da percepção como instrumento de execução da razão. Estar atendo ao que nos cerca e estar pronto para fazer perguntas a essa realidade. No primeiro momento o professor já deve ter passado por todo esse processo para ser capaz de conduzir o aluno a fazer tal experiência, a ruminar acerca das próprias inquietações existenciais e das coisas do mundo. Não, necessariamente, é preciso uma disciplina Filosofia; é preciso sim, atitudes filosófica por parte do professor para conduzir o aluno ao universo do pensar, do refletir. Não seria propriamente um mero acúmulo de conteúdos ou conhecimento, mas sim, cultivar uma atitude proativa do aluno no sentido de interagir com o mundo a sua volta, sabendo perguntar e ao mesmo tempo problematizar tudo que o cerca. Lembro de um aluno na 5a série (hoje 6 o ano) que ao ser encantado com a problemática que a Filosofia propões deixou a mãe em pânico quando pergunta de onde vêm Deus e porque o mundo é como é. Tive que encarar uma mãe furiosa porque o filho não mais se satisfazia com respostas prontas e dogmáticas acerca de algo que ela mesma aparentemente não compreendia e que a mesma não era capaz de responder.
A filosofia incomoda porque ela mexe com aquilo que aparentemente está pronto ou mesmo acabado. Conduzindo o ser humano a olhar o que está além do espelho, além do arco-íris. Ou seja, o que está aparentemente pronto e não cabe mais nada, daí ela aparece e desvela toda essa realidade. Oferece outras possibilidades de reflexão. Trabalha os conceitos e esses só nascem da reflexão sistemática, de uma problematização, do questionamento e da coragem do exercício dialético dentro e fora da sala de aula. É a chamada paciência dos conceitos, quando vamos na contra-mão desse momento hiper-rápido onde tudo tem velocidade. A filosofia nos convida a quebrar esse paradigma e nos deter na reflexão conceitual. É levar o homem a parar e ruminar acerca de tudo que está à nossa volta. Mesmo que tenhamos que transcender ao tempo formal de uma sala de aula e aos dogmáticos planejamentos e planos de curso.
A sala de aula da educação infantil é um espaço privilegiado onde podemos reinventar os conceitos e construir paradigmas e conduzir as crianças ao verdadeiro ato de pensar. Porque elas são privilegiadas? Elas ainda estão em processo descoberta do mundo e das coisas. Estão abertas ao novo e ainda não acostumaram com a realidade. Estão abertas às realidades diversas, aos saberes. Seu universo está em construção, daí sua abertura ao novo e as possibilidades. Significa dizer que com os estímulos certos ela transcenderá todas as suas potencialidades, não ficando assim presa ao mero mundo aparente que se apresenta.
Há uma unidade entre a experiência e o saber. Ambas constroem uma teia que desvela o conhecimento e o mundo. Isso abre a nossa consciência para o mundo. É um fazer e desfazer, construção e desconstrução. Pensar é pensar coisas a partir de signos, de códigos, linguagem. Tomamos como categoria o corpo para estimular a criança a identificar o mundo, tendo-o, o corpo, como critério perceptivo. Superando o cartesianismo que separa corpo e mente.
O iniciar filosófico do imaginário infantil deve partir do reconhecimento da própria identidade da criança. Olhando a si mesmo e sabendo seu lugar na natureza. Podendo começar a falar em uma comparação com outros seres e mediante essa relação iniciar um refletir acerca da própria identidade e o seu papel no mundo. Essa identidade me faz falar, pensar, brincar, chorar, correr, e querer ser feliz. Refletindo esses aspectos é possível identificar as relações entre nós, entendendo que cada ser humano mesmo com diferenças, tem particularidades e para vivermos bem em sociedade é preciso ter plena consciência de todos esses contextos. E é imprescindível para a criança já nessa fase ser conduzido a uma reflexão como essa, para já começar buscar a vida em sociedade, em grupo, comunidade. A própria sala de aula é uma comunidade. Tudo isso pode ser experimentado em um Projeto de Filosofia com crianças, algo muito livre, sem dogmatismos ou mesmo imposições, nem mesmo verdades acabadas ou absolutas. Tudo no mais em função do livre pensar e do exercício da expressão interior.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O poder de Deus, a esperança do mundo.

Existe apenas uma coisa a ser feita, buscar a salvação e a compreensão da vontade do Pai.
Perderíamos começar assim uma reflexão sobre a escatologia cristã. A pura manifestação de Deus na história da humanidade pela presença vivificante de Cristo Jesus. Em toda existência da humanidade muitas foram às pessoas que passaram suas vidas procurando repostas ao vazio que existia dentro de si. S. Agostinho é o exemplo clássico dessa afirmação, uma busca que parece não ter fim, por algo que está dentro de nós.
Indo para algum lugar, buscando alguma coisa. Assim é o homem contemporâneo, um andarilho de si mesmo, que precisa de um sentido último para si. E quando esse sentido não é claro ele perde a esperança e cai. Na depressão, nas drogas, nos vícios, no nada absoluto. Por mais que queiram dizer que não, por mais que não se aceite ou mesmo duvide, esse sentido é Deus, essência de tudo e de todos. Quando nos vemos em uma sociedade niilista, onde os valores perderam o sentido, somos levados a muitas vezes perder a esperança e fraquejar. Se quisermos ser felizes em Deus, a primeira coisa a fazer é encher-nos do bem, conservar no coração a vida e as coisas boas, dir-nos-ia pe. Léo em seu livro Buscai as coisas do alto. É acima de tudo, cultivar um espírito de amor e de confiança, de resgate de valores que outrora eram os ditames da conduta humana e que hoje viraram peças de museu. O que o professor Giovanne Reale nos exorta: uma volta aos antigos, um resgate à ética e aos valores que os gregos tão bem nos legaram. Cultivar o ideal da virtude, do valor que cada ser humano possui, atentando para nossa questão mortal e limitada, que só é resolvida pela misericórdia de Deus. Mesmo muitas vezes o homem querendo assumir uma postura de auto-suficiência, ele acaba percebendo que precisa de Deus. Quando nos apegamos ao que não merece apego. Achamos que tudo é nosso e acreditamos que o que está a nossa volta depende da gente. Quando nos apegamos as coisas e as pessoas, a cargos, títulos, bens materiais, nossos objetivos se tornam pequenos demais. Limitados e acima de tudo, perenes.
Viver o tempo da Graça. É uma realidade interior que todos somos chamados a vivenciar. Levar conosco essa mensagem para o mundo, a toda criatura. Tendo como meta a Salvação; como missão, anunciar o Evangelho. Lembrando as palavras de S.João da Cruz, plantando o amor onde ele não existe, para colhê-lo mais tarde. É aí que reside à esperança para esse mundo: o amor de Deus, levado a todos os confins da terra por seus discípulos e esse amor dando frutos e abundância. Seja você também um “Anjo de Jesus” que se torna mensageiro de sua palavra.

Fantasias na tela (uma reflexão sobre cinema).

Quem de nós não gosta de sentar diante da tv e assistir um belo filme?
Provavelmente todos. Porque o cinema tem esse poder? Nos transportar para dentro da tela, fazer com assumamos papéis que não são nossos.
Muitos nos vemos dentro das histórias, protagonistas de uma fantasia real. Todas as vezes que “ré-assinto” Matrix, me pergunto pela realidade. Questiono o que é real e o que é pensamento. É um dos vários filmes inteligentes e que podem nos fazer pensar, me lembra o pensamento de Descartes: “a existência precede ao pensamento”, ou seja, pensar é a condição para nossa existência.
A magia das telas é fundamentada na vida. Histórias de injustiça, ou mesmo de pessoas que buscam alguma coisa, são perseguidos, perseguem... Matam, usam armas modernas, ou vivem aventuras cotidianas. Refletem um pouco os nossos desejos de liberdade e poder. Em O Clube do Imperador, percebemos a importância da cultura na formação de um indívíduo e como somos nós mesmos os responsáveis pela formação de nosso caráter.
Sociedades perfeitas, como em Equilíbriun, refletem o desejo do homem de controlar tudo e de ter um mundo perfeito, mesmo que às custas da morte ou exclusão de muitos. A serviço de quem está o cinema? Existe algo por trás das telas?
Pensar isso é levantar questões sobre a própria essência de tudo, é entender que temos uma vocação para liberdade e para o questionar, para desvendar o mudo que nos cerca, que é enigmático e paradigmático.
Quando imagino uma temática como a do filme A vida é bela, onde o amor de um pai por um filho o faz camuflar os horrores da Segunda Guerra Mundial, e o leva a sonhar e até brincar com aquela realidade, me faz pensar que ainda existem muitos que pensam nos outros e que fazem a diferença em nosso meio, mesmo contra as idéias de egoísmo e guerra de todos contra todos (diria Sartre), que não podemos mais contar com a solidariedade ou mesmo a bondade de ninguém.
Também existem os que levantam questões que parem bobas. Efeito Borboleta I e II, podemos mudar o nosso destino? O que passou está onde? As viagens no tempo são possíveis? São muitas as inquietações filosóficas que nos são provocadas por esses filmes, ou seja, o cinema tem várias funções.
Quem ao assistir Um Dia de Fúria, não se perguntou se realmente as tensões e os problemas do nosso dia-dia não podem causar uma crise de personalidade e uma mudança radical no comportamento, no caso do filme, o personagem principal, abandona o carro em uma alto estrada, em um congestionamento quilométrico, assalta uma loja de armas e sai atirando em todos que encontra na rua. É conhecida a frase que diz: A arte imita a vida.
No livro O que Sócrates Diria a Woody Alen – Cinema e Filosofia, Jean Antônio Rivera, analisa vários filmes do consagrado diretor numa ótica filosófica, mostrando como as questões propostas pelo cinema refletem desejos internos do homem, ou mesmo medos e fantasias.
Por isso lembre-se: quando estiver assistindo um filme, ele é bem mais do que aparenta. Tente olhá-lo com olhos críticos e saiba que, cada vez que “ré-assistimos” percebemos mais uma dimensão oculta.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ditos e não ditos.

Parei e comecei a refletir: o que realmente estou fazendo de minha vida? Quem são as pessoas à minha volta? Em quem realmente confiar?
Somos seres que nascemos para viver em comunidade, nascemos para vivermos com outros. No entanto percebo que as relações são muito frágeis, condicionadas a elementos externos. Mesmo ainda encontrando pessoas verdadeiras, mas essas estão em extinção. Cada um com sua própria “verdade” que condiciona a seus interesses pessoais. Como falar em ética nesses dias? Como falar em princípios cristãos? É realmente um exercício muito complicado esse.
Vivemos em um mundo extremamente materialista, onde o TER supera o SER. E o único ser que prevalece é: “Você sabe quem eu sou?”, ou mesmo “você sabe quem é meu padrinho?”, enfim, as relações se resumiram em “troca de favores”, em mera conveniência. Onde as pessoas se tornam pseudo-amigos, para sugar o que podem: material, afetivo, status, ou seja, viver o que aparenta ser e nada mais.
Isso é próprio de uma sociedade de consumo, onde é preciso estar no mercado para ser visto. É preciso bater palmas para quem não merece para ser reconhecido. Costumo dizer que vivemos um vazio existencial que nos faz apegar aquilo que acreditamos como sendo verdadeiramente o real e o exato. E sempre buscamos preenche-lo com algo material e perecível, logo quando o mesmo se deteriora voltamos a perecer, ou mesmo substituímos por outro objeto. Vejam que em nosso tempo nunca tivemos tantos usuários de substâncias alucinógenas, ou seja, uma pseudo-felicidade, um pseudo-prazer. É a tentativa de ser feliz e ter prazer. Nietzsche diria: erguemos altares ao nosso bel prazer, quando esse ídolo não me satisfaz, derrubo o altar e ergo outro e assim por diante, em um exercício de auto-suficiência e soberba.
Chego à conclusão que nada faz sentido, que tudo é mera representação, que somos seres egoístas e que cada um só pensa em si mesmo. “digam o que disserem o mal do século é a solidão e cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando um pouco de atenção”, diria Russo. Isso é o pensamento caótico que querem que adotemos como verdade absoluta e creiamos. Racionalmente paramos aí.
Um dos homens mais sensíveis do seu tempo foi Nietzsche. Foi capaz de necropiciar o ser humano como um todo e profundamente falar de nossa alma como algo previamente exposto e sem coberturas. Escandalizou quando criticou o deus da metafísica e não foi compreendido. Falou de nossa condição de seres destinados a putrefação (leitura minha) que mesmo diante disso, não conseguimos nos desapegar do que nos cerca. Ousou criticar o pensamento dominante e “fazer” uma filosofia única, nos mostramos que podemos fazer o mesmo hoje.
02 de setembro de 2010, 22h41min, estou tomando uma taça de Botticelli (tinto seco), ouvindo Vivaldi e escrevendo esse texto para dizer que é preciso mais que nunca filosofarmos sobre tudo. Principalmente sobre o existir; aí lembro São Francisco de Assis: “Senhor que queres que eu faça?”. É o exercício do Ser e do Vir-a-Ser, da reflexão sobre o que realmente é o Ser humano e suas potencialidades (física quântica). Queria citar também um monge beneditino alemão chamado Anselm Grun, que também tem me ajudado muito a refletir sobre as dimensões da vida. Seu pensamento nos leva a uma viajem em nosso interior e a meditação de nossas potencialidades. Colocando em cheque a visão fatalista e caótica da realidade em que estamos inseridos. E apontando para Jesus Cristo com modelo a ser seguido. Modelo esse que vai na contra-mão dessa “sociedade de consumo”. Que nos dá esperança de uma realidade melhor e feliz.
Simpatizo com as idéias de Márcia Tiburi quando fala em defesa da solidão. Acredito na solidão como espaço de criação. O que Domenico De Masi diria: Ócio criativo. A esse acrescentaria à solidão. E aí diria como Schopenhauer: somo tudo isso ao papel da arte. E aqui me refiro especificamente à música. Agora são 23h26min, continuo com o meu Botticelli e agora ouvindo Tchaikovsky. Isso tudo me motiva a escrever e a ter “delírios filosóficos”. A pensar e repensar tudo. Pena que não tenho uma cúpula de vidro acima de mim para contemplar as estrelas.
Somos cidadãos do mundo, somos arautos do prazer. Somos o pássaro que tem suas duas asas iguais e uníssonas: fé e razão (J. Paulo II) que nos guiam por caminhos inóspitos e misteriosos, que nos levam ao nosso próprio eu em busca de desvelar aquilo que está oculto: nossa própria existência.


Bayeux, 02 de setembro de 2010.